sábado, 29 de março de 2014

A transferência da Monsanto


Fragmento dos diários de Coranzon.
Rio de Janeiro, setembro de 1952.
Isabela de Florença, sentada numa confortável poltrona acolchoada com couro de búfalo, perante sua escrivaninha, fazia anotações em um bloco de papel e aguardava ansiosa para que seu assecla adentrasse ao escritório com as novidades sobre os contatos com os últimos parlamentares ainda reticentes com a transferência da capital federal para a região centro oeste do país. O Palácio do Catete nunca teve muita importância para os membros da Corte de Guanabara, mas somente com o apoio dos políticos mortais o plano funcionaria de forma adequada.
Eu, sentando num sofá também confortável, próximo a janela que dava vista para a rua, observava a garoa refrescante (como se o calor me incomodasse) molhar a rua de terra que pouco a pouco se transformava em poças de lamas amarronzadas, enquanto descia correndo de uma pequena charrete, o pobre assecla com as notícias tão aguardadas. O problema com os seguidores de Phillip Moye estava cada vez mais preocupante, após várias noites de investidas contra os refúgios e esconderijos dos súditos de Du Deneuve, cerca de cinco ou mais fieis membros da corte foram capturados e levados para o local conhecido apenas como a fazenda. A situação estava insustentável.
Isabela, chamada de “a sábia louca” pelas harpias do arremedo de corte europeia que havia se transformado a capital do país, pouco se importava com as intrigas palacianas, o que lhe incomodava era a perseguição sofrida noite após noite por aquele grupo de famigerados carnicais. Assim, ela utilizou de seus recursos e contatos, para encontrar provas e perceber que Moye havia conseguido apoio da ala parlamentar militarista para preencher as fileiras de seu pequeno exercito com soldados que levavam a cabo seus planos de captura e extração de vitae dos membros da corte carioca.  Segundo ela mesma me informou em certa ocasião, somente com a retirada do poderio politico e militar de Moye a corte conseguiria sobreviver. E nada melhor do que dá aos mortais aquilo que eles sempre quiseram para completar concretizar sua ideia. Eles realmente haviam de acreditar que a transferência da capital federal é uma ideia boa para expansão e crescimento da economia, para o fortalecimento da nação e todas as outras idiotices que eles imaginavam serem reais.
O fato é de que assim que o assecla abriu a porta do escritório, ainda ofegante com a corrida entre a porta de entrada da enorme mansão e o escritório que ficava no final do corredor do segundo andar, houve um silêncio apreensivo e lancinante, do qual Isabela queria se livrar logo, mesmo que tivesse de se levantar e trazer puxando pelos cabelos aquele reles mortal à sua presença para ouvir o que era esperado. Mas a sólida compostura e educação refinada adquirida ainda na infância não lhe permitiriam jamais cometer tal ato.
- Prezada Senhora! – curvou-se abaixando a cabeça em deferência a mulher e retirando a cartola que havia sobre sua cabeça. Virando para minha direção fez a mesma deferência, mas agora utilizando o gênero masculino à sentença antes proferida.
- Vamos, digas logo se aqueles outros irão apoiar-nos! – bradou Isabela levantando-se celeremente de sua poltrona em menos de um segundo e com a pena do tinteiro ainda em sua mão esquerda apontando-a para o serviçal.
- Sim, senhora! Conseguiste o apoio da ala ruralista para a transferência da capital. Além disso, nossos assessores infiltrados descobriram algo que lhe possa agradar. – Falou o homem sem ao menos respirar duas vezes antes de obedecer a sua senhora.
- Então, prossiga. Conte-nos sobre essa boa nova. – proferiu Isabela, sentando-se calmamente agora que já havia recebido a notícia que tanto aguardava.
- Há rumores sobre Moye, alguns mencionaram que ele não está mais tentando convencer os parlamentares sobre a permanência da cidade do Rio de Janeiro como sede do governo federal. Outros até disseram que um de seus apoiadores políticos ofereceu terras na região do Goiaz... ao que parece, uma fazenda para Moye se estabelecer e manter o seu negócio funcionando.
- Maldito filho de uma rameira, que vá para o quinto dos infernos acompanhando essa corja de parasitas miseráveis, assim nos livraremos de dois problemas de uma só vez! - Exclamou Isabela e logo em seguida abriu-lhe um sorriso, para depois dispensar o serviçal para que se retirasse, utilizando para isso apenas um gesto com sua mão esquerda. Em seguida, ouvi-la dizer: - Ouviste tudo? O que achas desta, meu caro coração?

Eu, em minha lúgubre racionalização perniciosa acreditava que nada de bom poderia vir de qualquer atitude perpetrada por Phillip Moye, e assim, antes mesmo de responder aquela criatura tão fantástica e inquietante, em um piscar de olhos, descobri que deveria acompanhar a transferência da capital mais proximamente e observar atentamente quais seriam as verdadeiras intenções do criador da maior ameaça que já existiu nesse pedaço de terra aos membros de minha espécie.