A transferência da Monsanto
Fragmento dos diários
de Coranzon.
Rio de Janeiro,
setembro de 1952.
Isabela de Florença, sentada numa confortável poltrona acolchoada com
couro de búfalo, perante sua escrivaninha, fazia anotações em um bloco de papel
e aguardava ansiosa para que seu assecla adentrasse ao escritório com as
novidades sobre os contatos com os últimos parlamentares ainda reticentes com a
transferência da capital federal para a região centro oeste do país. O Palácio
do Catete nunca teve muita importância para os membros da Corte de Guanabara, mas
somente com o apoio dos políticos mortais o plano funcionaria de forma
adequada.
Eu, sentando num sofá
também confortável, próximo a janela que dava vista para a rua, observava a
garoa refrescante (como se o calor me incomodasse) molhar a rua de terra que
pouco a pouco se transformava em poças de lamas amarronzadas, enquanto descia
correndo de uma pequena charrete, o pobre assecla com as notícias tão
aguardadas. O problema com os seguidores de Phillip Moye estava cada vez mais
preocupante, após várias noites de investidas contra os refúgios e esconderijos
dos súditos de Du Deneuve, cerca de cinco ou mais fieis membros da corte foram
capturados e levados para o local conhecido apenas como a fazenda. A situação
estava insustentável.
Isabela, chamada de “a sábia louca” pelas harpias do arremedo de corte
europeia que havia se transformado a capital do país, pouco se importava com as
intrigas palacianas, o que lhe incomodava era a perseguição sofrida noite após
noite por aquele grupo de famigerados carnicais. Assim, ela utilizou de seus recursos
e contatos, para encontrar provas e perceber que Moye havia conseguido apoio da
ala parlamentar militarista para preencher as fileiras de seu pequeno exercito
com soldados que levavam a cabo seus planos de captura e extração de vitae dos
membros da corte carioca. Segundo ela
mesma me informou em certa ocasião, somente com a retirada do poderio politico
e militar de Moye a corte conseguiria sobreviver. E nada melhor do que dá aos
mortais aquilo que eles sempre quiseram para completar concretizar sua ideia.
Eles realmente haviam de acreditar que a transferência da capital federal é uma
ideia boa para expansão e crescimento da economia, para o fortalecimento da
nação e todas as outras idiotices que eles imaginavam serem reais.
O fato é de que assim que o assecla abriu a porta do escritório, ainda
ofegante com a corrida entre a porta de entrada da enorme mansão e o escritório
que ficava no final do corredor do segundo andar, houve um silêncio apreensivo
e lancinante, do qual Isabela queria se livrar logo, mesmo que tivesse de se
levantar e trazer puxando pelos cabelos aquele reles mortal à sua presença para
ouvir o que era esperado. Mas a sólida compostura e educação refinada adquirida
ainda na infância não lhe permitiriam jamais cometer tal ato.
- Prezada Senhora! – curvou-se abaixando a cabeça em deferência a
mulher e retirando a cartola que havia sobre sua cabeça. Virando para minha
direção fez a mesma deferência, mas agora utilizando o gênero masculino à
sentença antes proferida.
- Vamos, digas logo se aqueles outros irão apoiar-nos! – bradou Isabela
levantando-se celeremente de sua poltrona em menos de um segundo e com a pena
do tinteiro ainda em sua mão esquerda apontando-a para o serviçal.
- Sim, senhora! Conseguiste o apoio da ala ruralista para a
transferência da capital. Além disso, nossos assessores infiltrados descobriram
algo que lhe possa agradar. – Falou o homem sem ao menos respirar duas vezes
antes de obedecer a sua senhora.
- Então, prossiga. Conte-nos sobre essa boa nova. – proferiu Isabela,
sentando-se calmamente agora que já havia recebido a notícia que tanto
aguardava.
- Há rumores sobre Moye, alguns mencionaram que ele não está mais
tentando convencer os parlamentares sobre a permanência da cidade do Rio de
Janeiro como sede do governo federal. Outros até disseram que um de seus
apoiadores políticos ofereceu terras na região do Goiaz... ao que parece, uma
fazenda para Moye se estabelecer e manter o seu negócio funcionando.
- Maldito filho de uma rameira, que vá para o quinto dos infernos
acompanhando essa corja de parasitas miseráveis, assim nos livraremos de dois
problemas de uma só vez! - Exclamou Isabela e logo em seguida abriu-lhe um
sorriso, para depois dispensar o serviçal para que se retirasse, utilizando
para isso apenas um gesto com sua mão esquerda. Em seguida, ouvi-la dizer: -
Ouviste tudo? O que achas desta, meu caro coração?
Eu, em minha lúgubre racionalização perniciosa acreditava que nada de
bom poderia vir de qualquer atitude perpetrada por Phillip Moye, e assim, antes
mesmo de responder aquela criatura tão fantástica e inquietante, em um piscar
de olhos, descobri que deveria acompanhar a transferência da capital mais
proximamente e observar atentamente quais seriam as verdadeiras intenções do
criador da maior ameaça que já existiu nesse pedaço de terra aos membros de
minha espécie.
