sexta-feira, 18 de abril de 2014

A tomada de territórios nas terras das palmeiras.


Em convocação para assembleia extraordinária solicitada pelo prefectus Juan Esteban y Gonzales, a seguinte mensagem foi apresentada aos membros do Palácio Cartesiano. 

Mensagem encaminhada em 20 de abril de 2014
Assunto: Relatório de pesquisa de campo
De: Farejador da W3 Sul (farejador.w3sul@redefarejar.net)
Para: Geral - Farejadores (lista.farejadores@redefarejar.net)
C.C.: Pai do Ninho (iby@redeinterna.net)

Senhores,
Partindo-se da pesquisa histórica realizada pelos colaboradores da área bibliográfica, observou-se que os recentes movimentos dos alvos pesquisados na capital do país vêm seguindo um padrão de estratégia militar bastante conhecido pelas ordens militares mortais. No Brasil, a colonização portuguesa iniciou-se pela região costeira do país. Tal deveu-se ao entendimento de que o domínio dos limites de territórios em conflito facilita a chegada ao centro de qualquer terreno, pois além de providenciar um cerco ao inimigo, impede que haja meios de que os lideres do contingente adversário escapem para outros locais. Neste conceito de estratégia militar apoiou-se a cúpula de lideres dos caçadores sobrenaturais conhecidos como Carniceiros para tentar, de uma vez por todas, dominar e capturar todos os vampiros do Brasil. Acredita-se que foi esse o principal motivo deles terem deixado Brasília.
Segundo as investigações de membros do Palácio Cartesiano, o plano de expansão dos carniceiros começou em três frentes: Sul, Norte e Nordeste.
Informações recém-captadas mencionam que a investida no Norte não foi difícil, apenas duas cidades possuíam presença significativa de membros da sociedade vampírica: Manaus e Belém. Poucos conseguiram escapar do cerco e destes não se sabe onde se esconderam.
Como a maioria de nós já sabe, a situação no Nordeste foi mais difícil para os carniceiros. Recife e Maceió opuseram-se de forma mais contundente, enquanto outras cidades caíram em poucas noites, a resistência possibilitou nosso Pai do Ninha escapar ileso. Informações colhidas entre os alvos da pesquisa mencionam que eles acreditam que o nosso líder evadiu-se para algum lugar do sertão. Rumores plantados nas linhas de comunicação dos alvos estão reforçando esse boato. O plano de camuflagem da atual localização do Pai está funcionando de forma adequada até o momento.
Segundo relato em anexo de nossos farejadores da região, O sul ofereceu resistência aos carniceiros em Porta Alegre, Florianópolis, Itajaí e Curitiba. Os Lancea que Porto Alegre e os Invictus de Florianopolis lutaram por duas semanas, tempo suficiente para alertar a corte Invictus de Itajaí, que escapou do cerco e refugiou-se em Curitiba.
Os Carthianos de Curitiba parecem ter acolhido os Invictus, em uma espécie de acordo que nunca fora antes formado entre as duas coalizões. A resistência parece continuar firme, apesar de que muitas baixas foram contabilizadas. Maiores informações sobre a situação específica da cidade de Curitiba estão no relatório em anexo.


Juan informa ainda que o anexo da mensagem está criptografado e que pessoas especializadas nessa situação estão tentando quebrar o código para acessar a informação.

quinta-feira, 17 de abril de 2014


Da verdade que está dentro de cada um


"Tudo está guardado na mente
O que você quer nem sempre condiz com o que o outro sente"
Ainda há tempo - criolo

Raphael Holmes nasceu e viveu em São Paulo. Filho de um casal classe média, sempre precisou batalhar para conseguir o que queria. Sempre foi muito inteligente e pouco entrava em encrencas, sendo bem reservado e observador. 

Muito estudioso e com uma excelente memória, ele sempre lia muitos livros de diferentes assuntos, e decidiu que fazer uma faculdade seria um bom passo para seu futuro. Sherlock, apelido dado por seus amigos devido ao seu sobrenome, resolveu fazer faculdade de Direito e tentar a sorte abrindo sua própria empresa de advocacia. Mas depois de formado, a falta de investimento e bons sócios o fez mudar de idéia, e começar a procurar outras carreiras.  Decidiu tentar concurso público para Agente da Polícia Federal, já que tinha um bom raciocínio, memória e faculdade.

Formado, aprovado na OAB e aprovado na Polícia Federal, começou sua carreira como agente e subiu rápido, sendo muito respeitado na corporação. Sua boa memória e observação aliado a sua inteligência o fez resolver muitos casos e ganhar respeito. Frequentemente viajava para investigar crimes em outros estados. Mas também era um bom soldado, muitas vezes ia junto com tropas especiais em campo, o que o fez adquirir experiência com armas de fogo.

Suas boas investigações como agente o trouxeram perto da morte diversas vezes, o que o fez começar a retornar a idéia de abrir uma empresa mais fortemente, principalmente quando começou a namorar mais sério uma menina que conheceu em um bar em São Paulo. Pensando em segurança, ele se afastou da corporação (apesar de manter bons contatos e aliados) e abriu uma empresa, se tornando um detetive particular. O negócio a principio não deu tanto certo, mas Rafael e sua esposa conseguiam tirar seu sustento dali. 

Depois de investigar uma série de crimes relacionados a homicídios em boates no oeste de São Paulo, em parceria com a polícia federal, ele chamou a atenção de um vampiro, que também estava investigando os mesmos crimes (relacionados a quebra de máscara - pessoas morrendo sem sangue perto das boates). O vampiro, que se chamava Júlio Medalha, bem conhecido por liderar a famosa coterie Allianzcourt em São Paulo, ficou bem interessado nas habilidades de Raphael, pois estava procurando novos colaboradores para trabalhar junto com os Invictus para investigar e manter as tradições da máscara, e começou a segui-lo.

Depois de um tempo seguindo Raphael, Júlio resolveu observar como ele resolveria esse caso de quebra de máscara. Seria o teste final de Raphael, e depois de semanas investigando, ele conseguiu pistas sobre o assassino. Júlio ficou feliz com a notícia, pois além de ter uma quebra de máscara resolvida, também percebeu que Raphael seria um bom colaborador para a coalizão. Divorciado, na noite de seu aniversário, quando Rafael estava chegando sozinho depois de comemorar com uns amigos em um bar, Júlio invadiu a casa e o abraçou durante o sono.

O abraço foi um choque muito grande, mas Júlio foi um bom professor. Ensinou a Raphael tudo que sabia, e o introduziu ao mundo da noite. Como Júlio tinha certo prestígio, Raphael eventualmente conseguiu fazer os amigos certos, e logo não era apenas um neófito, mas um "vampiro promissor". Contudo, muito coisa mudou depois que Julio Medalha decidiu envia-lo ao centro-oeste do país, para investigar o "desaparecimento" de alguns Invictus, ocorrido ainda na época do regime militar, e também lançar as bases de uma representação do Primeiro Estado perante o Palácio Cartesiano.


sábado, 29 de março de 2014

A transferência da Monsanto


Fragmento dos diários de Coranzon.
Rio de Janeiro, setembro de 1952.
Isabela de Florença, sentada numa confortável poltrona acolchoada com couro de búfalo, perante sua escrivaninha, fazia anotações em um bloco de papel e aguardava ansiosa para que seu assecla adentrasse ao escritório com as novidades sobre os contatos com os últimos parlamentares ainda reticentes com a transferência da capital federal para a região centro oeste do país. O Palácio do Catete nunca teve muita importância para os membros da Corte de Guanabara, mas somente com o apoio dos políticos mortais o plano funcionaria de forma adequada.
Eu, sentando num sofá também confortável, próximo a janela que dava vista para a rua, observava a garoa refrescante (como se o calor me incomodasse) molhar a rua de terra que pouco a pouco se transformava em poças de lamas amarronzadas, enquanto descia correndo de uma pequena charrete, o pobre assecla com as notícias tão aguardadas. O problema com os seguidores de Phillip Moye estava cada vez mais preocupante, após várias noites de investidas contra os refúgios e esconderijos dos súditos de Du Deneuve, cerca de cinco ou mais fieis membros da corte foram capturados e levados para o local conhecido apenas como a fazenda. A situação estava insustentável.
Isabela, chamada de “a sábia louca” pelas harpias do arremedo de corte europeia que havia se transformado a capital do país, pouco se importava com as intrigas palacianas, o que lhe incomodava era a perseguição sofrida noite após noite por aquele grupo de famigerados carnicais. Assim, ela utilizou de seus recursos e contatos, para encontrar provas e perceber que Moye havia conseguido apoio da ala parlamentar militarista para preencher as fileiras de seu pequeno exercito com soldados que levavam a cabo seus planos de captura e extração de vitae dos membros da corte carioca.  Segundo ela mesma me informou em certa ocasião, somente com a retirada do poderio politico e militar de Moye a corte conseguiria sobreviver. E nada melhor do que dá aos mortais aquilo que eles sempre quiseram para completar concretizar sua ideia. Eles realmente haviam de acreditar que a transferência da capital federal é uma ideia boa para expansão e crescimento da economia, para o fortalecimento da nação e todas as outras idiotices que eles imaginavam serem reais.
O fato é de que assim que o assecla abriu a porta do escritório, ainda ofegante com a corrida entre a porta de entrada da enorme mansão e o escritório que ficava no final do corredor do segundo andar, houve um silêncio apreensivo e lancinante, do qual Isabela queria se livrar logo, mesmo que tivesse de se levantar e trazer puxando pelos cabelos aquele reles mortal à sua presença para ouvir o que era esperado. Mas a sólida compostura e educação refinada adquirida ainda na infância não lhe permitiriam jamais cometer tal ato.
- Prezada Senhora! – curvou-se abaixando a cabeça em deferência a mulher e retirando a cartola que havia sobre sua cabeça. Virando para minha direção fez a mesma deferência, mas agora utilizando o gênero masculino à sentença antes proferida.
- Vamos, digas logo se aqueles outros irão apoiar-nos! – bradou Isabela levantando-se celeremente de sua poltrona em menos de um segundo e com a pena do tinteiro ainda em sua mão esquerda apontando-a para o serviçal.
- Sim, senhora! Conseguiste o apoio da ala ruralista para a transferência da capital. Além disso, nossos assessores infiltrados descobriram algo que lhe possa agradar. – Falou o homem sem ao menos respirar duas vezes antes de obedecer a sua senhora.
- Então, prossiga. Conte-nos sobre essa boa nova. – proferiu Isabela, sentando-se calmamente agora que já havia recebido a notícia que tanto aguardava.
- Há rumores sobre Moye, alguns mencionaram que ele não está mais tentando convencer os parlamentares sobre a permanência da cidade do Rio de Janeiro como sede do governo federal. Outros até disseram que um de seus apoiadores políticos ofereceu terras na região do Goiaz... ao que parece, uma fazenda para Moye se estabelecer e manter o seu negócio funcionando.
- Maldito filho de uma rameira, que vá para o quinto dos infernos acompanhando essa corja de parasitas miseráveis, assim nos livraremos de dois problemas de uma só vez! - Exclamou Isabela e logo em seguida abriu-lhe um sorriso, para depois dispensar o serviçal para que se retirasse, utilizando para isso apenas um gesto com sua mão esquerda. Em seguida, ouvi-la dizer: - Ouviste tudo? O que achas desta, meu caro coração?

Eu, em minha lúgubre racionalização perniciosa acreditava que nada de bom poderia vir de qualquer atitude perpetrada por Phillip Moye, e assim, antes mesmo de responder aquela criatura tão fantástica e inquietante, em um piscar de olhos, descobri que deveria acompanhar a transferência da capital mais proximamente e observar atentamente quais seriam as verdadeiras intenções do criador da maior ameaça que já existiu nesse pedaço de terra aos membros de minha espécie.